segunda-feira, 28 de novembro de 2011

NÃO PEGOU


Meu texto que não venceu  o concurso de redação da Biblioteca. Fica para outra vez.

A MELHOR PARTE

 Da Vinci:
“Aprender é a única coisa de que a mente nunca se cansa, nunca tem medo e nunca se arrepende”

Cada coisa agradável que se faça na vida carece de perfeição. As do tipo comer (nham!), beber, dormir, têm seu momento, cansam. Todos os níveis de amar produzem sua parcela de medo. Desfrutes etílicos e fumosos vão trazer arrependimento. Viajar de férias para Dubai, já viu, as companhias aéreas nos dias de hoje são causa certa dos três efeitos colaterais.
Agora, quanto a aprender...
O sumo do aprender é poesia. Lazer. Desde a descoberta de que c+a é ca, s+a é sa, ca+sa é casa, casa tem quatro paredes por fora, algumas outras por dentro, teto, chão mantido limpo, pessoas e conflitos dos quais era possível escolher fugir, deixar que outras meninas se limitassem a arear panelas e cuidar de bebês, e, sentada na raiz do coqueiro, apenas se entregar à leitura de pedaços de jornais velhos, que fossem, chegados nos embrulhos da mercearia, com notícias já de meses digeridas e cuspidas em bagaço pela Censura Federal (a Ditadura imperava), ou se esbaldar com os romances e lendas de fecundos cordelistas, que era um petisco deleitável de retro gosto indelével _ José Camelo, João Ferreira, Athayde, Patativa...
Em suma aprender é: estudar, acompanhar notícia e ver histórias.
Reproduz o movimento de um fole a encher-se de ar, soltar emitindo som significativo, encher-se, esvaziar-se, encher-se... É pulmão. Aprender é respirar.
O abc leva ao infinito da Ciência. De escrever casa, pode-se passar a engenhar moradia, mobiliário, vestuário, saúde, transporte, política, educação, entretenimento...
A notícia, hoje livre do velho papel, flutua no espaço cibernético, integral, quem consumir cuspa o próprio bagaço.





E as histórias, de petisco apreciável vão a nutritivo _ Clarice, Lígia, Nélida, Machado, Rodrigues, Sabino, Ubaldo, Saramago, Llosa, Allende, Duras, Beauvoir, Hemingway, Fitzgerald, Joyce, Miller, Brontë, seguindo para Chekhov, Kafka, Tolstoi, Dostoievsky, podem chegar a Homero, ou vice-versa, o mais lógico, chegar a Feliz Ano Velho, Vergonha dos Pés, a cada novo para ver se é bom.




Aprender é o biscoito fino que Oswald de Andrade ainda espera ver a massa comer. É aqui que sempre se pode ficar, despreocupadamente recostada no coqueiro. Só vai doer se um coco, lá de cima, soltar-se do cacho. Mas aí, é metáfora mesmo...



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

GLOBAL


Estou na Suíça também. Impressa. Em Genebra. Desde setembro.
A revista literária é Varal do Brasil. Pode ir conhecê-la, meu texto vai da página 89 à 91.
Ou leia aqui mesmo:


ESTADO GRAVE

Para a festa de Natal o precioso equipamento fotográfico de seu irmão Quincas foi posto a salvo em um depósito. O lugar se encheu de modelos. Moças e rapazes voluntariamente famintos, cujos esqueletos nada lhe diziam. Esqueletos falando estrangeiro, perdida aquela sua breve capacidade de comunicação. Apagado o relâmpago que riscara o seu céu e clareara um mundo com que interagir. Mundo com duração de parcos meses. Agora nenhum ser lhe dizia nada de relevante. Sua língua servia mais de lacre que de desenhadora de letra sonora. Pior que antes do relâmpago, quando o tempo havia sido de espera tranqüila, o aguardo de justamente um relâmpago para acender o mundo. As tempestades repetem-se a períodos, mas os relâmpagos são aleatórios. E que dizer da aleatoriedade do relâmpago simbólico?
Nessa noite apareceu Cota. Relâmpago tão ao fim do céu. Para lá do horizonte. A despeito do lamê vermelho no vestido de mangas bufantes. Decote até o umbigo. Personalidade vocal. Perto dela pouco se precisa falar. Apareço aqui vez em quando, Cota revelou, encontrei esse menino por acaso no desfile de uma grife. Ele não lhe disse? Já faz quase um ano, não é, Quincas? Com um olho empenhado no flerte com o rapaz, cobrou de Nana: E aí, caramujo, por que não me telefonou? Estou sabendo que papai lhe deu meu número de telefone.
Perdi o cartão, mentiu Nana, poupando a outra de sintomas maiores da indiferença, virose habitante de suas entranhas. E lembrou: Você poderia ter telefonado, se quisesse.
A gente nem sabe direito o que dizer a um caramujo que nem você, respondeu Cota. Sacou de dentro da bolsinha metalizada outro dos cartões de visita com logotipo, telefone e endereço da boutique da mãe, Hera. Copacabana. Representante de uma conhecida marca internacional de moda jovem. E acresceu a censura: Sempre a mesma Nana! Vivendo dentro dos livros, falando difícil, não é? Deveria tomar jeito. Tá na hora. Os heróis dos romances nunca vão virar gente. É bom começar a ter medo de ficar pra titia, sabe, de ficar no caritó. ‘Cê nem é tão feia. Um banho de loja, maninha, tem de ver que milagre pode fazer... Tô falando por mal não. A gente se conhece desde neném, né? Todas aquelas férias juntas. Só queria te fazer saber o que é namorar... ‘Cê ia morrer fazendo isso.
Certíssima nesse último ponto. A pessoa fica querendo morrer namorando. Que o mundo acabe em namoro. Os mísseis incinerem o alheio em redor, enquanto a gente se completa em par fundido. Na mais completa alienação. Enquanto durar. Porque o fim tarda mas não falha. E nem tardo foi. Seis meses. Relâmpago.
Mas seria lógico lembrar a pouca idade delas. E que além do mais andar arriando a calça por aí não garante o futuro. Em qualquer idade. Não se tratando de negócios. Ciente de quanta filosofia resultaria, sua resposta à verbiagem da outra foi um sorriso. Com a palidez do vírus. A colega bufou revirando os olhos de avelã, ajuntando para o alto da cabeça o cabelo de seda herdado de Hera. Depois beijou-lhe o rosto, despedindo-se com: Deus te ajude.
Nem sempre teve essa falta de efeito. Sua indulgência quanto ao maneirismo da colega costumava conter humor. Quase tão vivo quanto o lamê daquele vestido. Mesmo jamais tendo acrescentado algo significativo uma à outra.
E Nana a deixou ir sem perguntar: Como vai seu pai? Anda tristonho? Ou está saindo com alguma desquitada? Alguém que já cumpriu sua quota de erros. E sem ouvir possível convite para acompanhá-la à Cidade Maravilhosa. Mamãe ia adorar te ver, a outra diria, e papai também.
Para fazer a pergunta teria de nascer de novo. Para aceitar o convite idem.
Um poeta dos seus usava a expressão “desperdiçar minha poesia”. Havia de ser aquilo. Desperdiçar afetividade com alguém alheio à sua existência. Pérolas aos porcos.
Alguém pôs o disco do cantor baiano. A música a tomou feito líquido quente a um recipiente. Subindo. Pesando. Em iminente transbordar. O irmão, inconsciente de sua comoção, pôs as mãos em sua cintura, induzindo-a. Dois pra lá. Dois pra cá. E apontou: Foi má com sua amiguinha.
Sabe como aquela é, justificou-se com a garganta obstruída, vive num grau de alegria que ninguém consegue acompanhar.
Queria que você não parecesse a menina mais tristonha do Natal.
Impressão sua, mano.
Se ele houvesse continuado a ocupar-lhe o sentido com a conversa, teria sido possível a contenção emocional. Mas limitou-se a levá-la no ritmo. Cordas plangendo. Eco de um órgão. Bateria delicada. Estrofe melancólica:
“...não pense na separação
não despedace o coração
o verdadeiro amor é vão
estende-se infinito
imenso monolito
nossa arquitetura
quem poderá fazer
aquele amor morrer
nossa caminhadura
cama de tatame
pela vida afora...”
O irmão sentiu o ombro molhado. Espiou-a. Nana...! _ com um muxoxo de compaixão pegou seu rosto. Sem pergunta verbal. Questionava com a face, cheio de direito fraterno. Ela nada falou. Contumaz caramujo. Deteve o derramamento à custa de mandíbulas trincadas.
Entrou música de descabida alegria. Pararam diante um do outro. Ele sorriu resignado e brando. Borrou o make-up, avisou, tá a cara do Carlitos.
Sua deixa. Correu para o toalete. Lavou a cara. Esfregou papel toalha. Redesenhou a risca preta para dentro dos cílios inferiores. Método de disfarçar a tristeza de pálpebras caídas. Seu traço fisionômico natural. Sem necessidade de uma música a aumentar o espaço abaixo da íris. Fitou o espelho, pensando no socorro da tinta na cara. Dezessete anos. Apenas ela enxergando os calos de crescimento. Irrisórios calos, para o possuidor de quantidade muito maior. Insuficientes para encorajar um gato escaldado. E não era natural ele ter medo de água fria? Depois de toda a má interpretação de seus atos por parte da lei. A menos que o valor dela suplantasse o risco. Compensasse o possível sacrifício. Houvesse gratificação no poder de diluir concha. Ele era o único. No mundo dela. Mas sem a capacidade de perceber a importância disso. Tornou a verter lágrimas. Tornou a borrar a máscara. Noite perdida. Tornou a lavar e esfregar toalha de papel com fúria. Noite perdida!
Foi para o isolamento do quarto. Arrancou da parede o mapa falante. Ficava lançando-lhe em rosto o destino que não tomaria. Só nascendo de novo. No dia seguinte diria a Quincas sua opinião sobre a peça na parede.
Ele estranhou: Horrendo como? Mapas são tão interessantes.
Interessante na parede é uma paisagem, Quincas.
Ora, mapa é a síntese de todas as paisagens. Basta ter imaginação.
Ela teria teimado em que era um dos maiores absurdos já ouvidos, se o objeto da discussão não houvesse de fato sido sugestivo. Então se calou. Só tinham estéticas opostas. Pois bem.
Tudo oposto. Ele, por exemplo, jamais largava um osso suculento. Falou de convite feito por Cota para passarem o Reveillon em Copacabana. Assistirem à queima de fogos na praia.
Se pretendesse passar a ponte incerta, era hora. Teria objetivado no subconsciente ao aceitar essa viagem para São Paulo? Conscientemente porém, num nível similar ao do superego, a questão estava resolvida. Inútil apelar. Não vou ao Rio de Janeiro, avisou.
Mas, Nana, vamos, vai ser o maior barato!
Vá você. Nada impede. Sabemos que foi convidado para o beijo da virada.












Ele soltou um assovio. E zangou quando ela disse que voltaria para casa no dia seguinte. Ficou irredutível por causa do acordo de distraí-la, feito com o pai.
Ela contestou com raiva o ridículo de ter babá. Um inferno ser sempre tratada como criança.
Ele retrucou falando da liberdade cultivada nessa família. Se não sabia desfrutar, culpasse a si mesma. E ela se arrependeu de trocar os bandidos da história. Mudou de tom, passando a regatear com calma seu retorno à Bahia. Ao final abriu mão de uns dias. Iriam juntos ao aeroporto no último dia do ano, embarcando cada qual em um avião.
Ele teria os seus fogos na praia. 
E ela a companhia de Santiago, seu gato preto.

TORRENTE



Primeiro engoliu o suco contido no copo. A garganta se apertava ressecada. Desistiram do jantar, foram à saleta. Nem só por causa de medicação rejeitara álcool havia pouco. Tudo o que inebria é inimigo seu. Tem de reconhecer que desconhece a medida do equilíbrio. Deixa o talento da corda bamba para aquelas moças espetaculares do circo. Ela é mediana, esteja de que lado estiver. Considera-se uma Mariazinha medíocre.
_ Um dia me iludi com a idéia de que era especial. E conheci alguém, que também inventou isso de si _ Então levou Hernández a conhecer sua história com Thomas. Las Vegas. Na segunda hora do primeiro encontro estava cometendo atentado ao pudor com o americano, encostados na caça níquel de um cassino. Atirados à rua pelos seguranças, era madrugada, aquele seu amigo muito recente roubou um carro, e foram os dois tirar da cama um daqueles magistrados que realizam os célebres casamentos dali. Casados, registraram-se em um hotel somente para pegar uma manta bem fofa e irem se estender em cima de uma tumba no cemitério, onde consumaram o enlace, em meio ao silêncio e à penumbra natural e algo macabra, exceto pelo uivar de um cão nas proximidades e à espécie de aurora boreal que aquela montoeira de luminosos desenha no horizonte da cidade.
Depois foram a outro cassino, onde Thomas trapaceou no carteado só para pagar ao hotel a manta que esqueceram no cemitério. Umas atitudes assim. Só faziam sentido por estarem sob efeito de cocaína, heroína, álcool.
Um estilo de vida que continuou no Brasil. Até ele começar a traí-la com quase todas as conhecidas. Brigavam, trocando as ofensas mais inacreditáveis e as vinganças mais estúpidas. Quando ela levou a primeira bofetada, afastou-se dele. Descobriu logo em seguida que estava grávida. Hesitou bastante em lhe contar. Mas o fez. E ainda se deixou convencer de que iam viver diferente, com o filho. Comemoraram com um vinho velho e nobilíssimo, adquirido de modo não confesso mas presumível.
E ela voltou para os hotéis da vida, seguindo-o com a barriga crescente.
A segunda agressão física a mandou para o hospital, com hemorragia e quase a abortar João.
Preso, Thomas uivava na cela: “Johnny! Johnny! Perdão, meu pequeno Johnny!”
Ao visitá-lo sentiu pena. Ele chorou muito, beijando-lhe a barriga.
Sabia que ele não mudaria, mas fez o possível para o libertar da prisão.
Seu pai, viúvo pela segunda vez, e já não tendo grande saúde mental, teve derrame, e passou longo tempo internado numa clínica. Ela cuidava do bebê, instalada sozinha na casa onde crescera. Arranjou emprego na fábrica de malhas para a qual ainda presta serviço.
E aos poucos Thomas foi voltando, para ver o filho. Tinha aquela espécie de magia, e ela uma suscetibilidade sem par. Durante os primeiros oito anos de vida João foi submetido a esse puxa-encolhe. E não só ele mas outros três rebentos. Uma prole inteira.
Ele não chegou a agredir fisicamente nenhum dos filhos, mas era impraticável esconder deles a desavença, os hematomas, a constante presença da polícia registrando as ocorrências e, principalmente, as overdoses que a levaram às internações para desintoxicação, e, claro, as recaídas. Causava-lhes no mínimo insegurança, raiz certa de trauma. Causava miséria, medo. Uma porção desses crimes hediondos. De modo que recebeu vários ultimatos das autoridades, ameaça de os perder, por incapacidade de os criar.
Só libertou de uma vez o espírito no dia do segundo aniversário de Gisele, a caçula.
Hernández a ouvia sem interrupção, com seu rosto-espelho, o aspecto de estar vendo exatamente o que ela revia e lhe contava. E somente uma dúvida no final:
_ Como foi que se libertou?
A exata pergunta que ela continua a se fazer. Como acordou finalmente para o fato de que qualquer um que não apóie a sua vida não é digno do seu tempo. Tem a circunstância do acontecido. Circunstância a ser interpretada: na hora da aniversariante soprar a sua velinha de número dois em cima do bolo, João, então com oito anos, pediu para fazer o pedido por ela.
“É muito pequena”, explicou ele, “mas eu sei o que pode ser um grande desejo dela”.
Feito. Mais tarde ouviu Edith, a segunda filha, perguntar ao irmão um ano mais velho: “Pra quem fez o pedido, Johnny? Foi pra Gisele mesmo? Ou pra você?”
“Pra mim”, respondeu ele, “pra Gisele, pra você e pra Lili”.
“O que pediu? Que o nosso pai fique sempre em casa? Porque é muito ruim quando ele tá aqui...”
“Não foi isso. Pedi que a gente só tivesse mãe. Pra Mariazinha nunca mais apanhar nem ficar doente”.
De repente, nossa! Pareceu tão fácil, que era só querer. Ela queria há muito tempo se libertar. E não só por dever, também por medo desse curso de destruição. Se seus filhos podiam acreditar em tal possibilidade, por que ela não? E de fato, nunca mais caiu. Daí em diante passou a reagir com asco a Thomas.
_ Não sei se dá para explicar o fim de um vício. Dá?
_ Acho que não _ Hernández refletia _ É um milagre do espírito humano _ pegou sua mão, rindo-se e apertando-lhe os dedos, ao concluir: _ Você não é uma... Como foi que disse? “Mariazinha medíocre”? Madre de Dios! Você é... ressurgida, sobrevivente... _ tornou a rir-se _ ...ambidestra! Poderosa!

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

RINO

Ele é bonito e simpático. O tipo do galã fraternal. A ferramenta tem a espessura de um lápis. Parece, vejo de relance, fecho os olhos tão logo sento no cadeirão, como quem tenta ignorar o estupro. "Pense noutra coisa, filha". A ponta causa um poco de dor nas narinas inchadas demais. Depois escorrega até as cordas vocais. Tusso, e... well, tente dizer vogais com um lápis enfiado na garganta.
O que vem a doer de verdade é o preço do tratamento. Dessensibilização. Faz por merecer o nome complicado. O computador sequer reconhecerá o termo, vai grifar em vermelho. Na viagem de ônibus, voltando para casa, chego a chorar. Talvez só reste me despedir do sonho de recuperar o olfato e o paladar. E torço para que não entre algum conhecido a sentar-se ao meu lado.
"Por que está chorando?"
"Otorrino. Alergia a mofo. Vacina a quatrocentos reais"
"É a vida. Pelo menos tem cura, né? Lembra da filha do Fulano de Tal? Ainda era quase adolescente. Reclamava de dor no quadril. O médico receitava diclofenaco em toda consulta. Depois se viu que era leucemia. Morreu em poucos meses".
Nessa hora uma pessoa conhecida sempre pode piorar a coisa. A intenção é boa. Daquelas que enchem de gente o inferno. Distraidamente. Já fiz o mesmo, para a amiga que reclamava da necessidade de duplicar a dose diária de antidepressivo: falei de nossa colega de infância que estava com suspeita de câncer na tiróide; alarme falso; felizmente, soubemos mais tarde.
Agora entendo a expressão da vítima, a depressiva.
Pois é, a vida _ desculpe o arroto. Se eu gosto da vida? E que tal a alternativa?
Um suspiro, e recosto-me na poltrona do coletivo, enxugando as lágrimas com o cuidado de não passar nos olhos as mãos de corrimão. Semana que vem tenho oftalmo, para atualizar os óculos. Faltam só três títulos para completar a leitura da obra de Hemingway. O Verão PerigosoO Adeus às Armas O Sol Também se Levanta. Ele descreve comidinhas e vinhos como ninguém.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A POESIA


Devo fugir da Senhora
que me enlouquece.
Caio do muro
no meio da lama.
Intuo sagrado
o que me traz dano.
Dimensão de louco.
Oásis de hospício.
Mas se os olhos fecho
pra só ver matéria
matéria fico.
Sólido morro.
Tédio.
Terra.
Se só vir matéria
subo no muro.
De novo.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

ESTRÂNGULO


           Anoitece.
        Encontrará em casa o silêncio, o mini lago no jardim, o sapo que vez ou outra aparece. Fica sumido durante dias, semanas, e passa para uma visita ao lago. Já lhe deu sustos; numa iminência de tempestade, ao desconectar as tomadas dos eletrodomésticos, deu de cara com ele sentado sobre a televisão, olhinhos brilhantes fixos.
        Se for para casa, decerto vai se sentar à margem da água, perdendo-se em reminiscências noite adentro. Sua vida atualmente. 

O sapo. O príncipe.
O pêndulo.
O lago. Plácido.
O beijo. Vendaval.
O tempo. Surdo.
Mórbido...

           É do Tuta, o poema. Peso de chumbo na reticência.
        Decide evitar. Vai rodar por ali. Queimar gasolina. Onde é que se pode ir meditar à toa numa noite solitária numa cidade industrial? Avança pelas ruas comerciais. Chega ao shopping center. Comprará a bolsa que viu na loja indiana. Para presentear tia Jane. Não é sua tia de verdade, é mãe do Tuta. Foi quem a trouxe afetuosamente a essa cidade. Aniversaria. No dia do casamento do ex-marido. Boa e sóbria tia Jane. Deu-lhe apoio naquela adolescência, incentivou seu talento profissional. É sua sócia no atelier há anos. E também tentou arrazoar quanto à sua decisão de casar com Zé Carlos. "São muito diferentes, Lia. Dá problema. Vêm os filhos, que ficam sem saber o que é certo, pois os pais não entram num acordo. Olhe para a minha história. Veja o resultado no Tuta".
        Mencionar Tuta a fez decidir mais depressa. Precisava viver. Envolver-se com coisa concreta e só sua.
        No entanto, depois do "vendaval", tudo ficou malparado. Os filhos, achou por bem nem trazer ao mundo. Zé Carlos vivia para o trabalho, só lhe concedendo frestas de tempo. Até numa tarde entrar apressado, e fazer uma mala, informando: "Vou pro Pantanal. De mudança. Você resolve se vai depois, fique pensando no assunto. Tô indo na frente, pra aproveitar a carona no caminhão do Pedrão, que vai buscar uma carga. Passa aqui já, já". 
        Ele subitamente decidira haver chegado a hora de assentar a vida às margens do rio Paraguai, onde os pirilampos iluminam o campo à noite, os grilos fazem uma sinfonia, o peixe se pesca e se come na hora, a gente vizinha é singela e hospitaleira. Ela pensasse no assunto.
        Pensou. Dias, semanas. Considerava a poluição, o barulho, a violência urbana; e resolvia ir. Considerava o mato, os mosquitos, as cobras, a rudeza, o isolamento; e resolvia ficar. Considerava os pés frios de solidão, o travesseiro único; e iria. Considerava a mornidão, a mesmice; e ficaria. 
        Meses. Ano. Anos. Uma balança. Uma gangorra; ela é e não é.
        A essa altura pode já haver uma índia, cabocla, mameluca, cariboca, carijó, uma mestiça de lá preenchendo a vaga na cozinha e na cama dele.

terça-feira, 28 de junho de 2011

DEPUTADO


        Habituaram-se a encontrá-lo por ali. No elevador, nos corredores, receber e dar duas palavrinhas. Ele os vinha ver, com algum agrado nos bolsos para as crianças. Elogiava o bolo de fubá dela e esvaziava o bule de café de Raduan. De ordinário sorria mais no começo da semana, comendo o mundo pelas bordas, trajado de uma esperança, um semi traje que se ia puindo no correr dos "cinco dias mais ou menos úteis" (palavras dele).
  Entre as contrariedades que o punham naquele estado desgastado percebia-se um pasmo, um espanto pelo que o mundo causa a si próprio.
  _ É um haraquiri _ expressou, parado em pé no meio da cozinha, com uma xícara a caminho da boca _ Mas não é sequer por algum tipo de prazer que o mundo se suicida. Vocês sabem, como o sujeito que explode de tanto comer, o que apodrece de beber, ou outro vício. O mundo simplesmente se rasga. Sem explicação. Isso está evidente nas pessoas se matando no trânsito, por negligência, digladiando-se nas arquibancadas de futebol, por intolerância, casais destruindo-se e aos filhos por estresse. A mídia que é feita dos mesmos seres comuns, mastiga isso tudo e cospe sangue para cima, espalhando infecção. E a Política, ah, a Política! Arre!... Vocês me deem mais desse mais desse café, pelo amor de Deus! Sei que creem em Deus, ou não fariam um café assim.
  Era isso, sem a intenção de os politizar, mesmo obter resposta; simples arfar de estafa que se solta ao vento. O casal, nesse seu instante de ser vento, reconhecia por função ouvir e calar. Mesmo porque no instante a seguir ele sobrepunha a essa estafa existencial o bom da vida:
  _ E os meninos? Como foi a semana deles? Ah, aí estão, olá! Pronto, olhem o que trouxe: pirulito... Ah!, sentei em cima... Esfacelou, bolso errado. Desculpem! Serve moeda? Ótimo, tomem. Vejam lá, não ponham na boca. Doce é para pôr na boca, moeda é para comprá-lo. Vou ser mais cuidadoso da próxima vez. Venham cá, com o titio, que precisa de vocês para respirar. O que fizeram de bom? Alguma coisa legal? Um viaduto de massa?! Ah, é? Todo colorido. Sim, mas é lógico que quero ver! Vá buscar, Tito. Michele, deixe-o ir, fique, se brigarem para trazê-lo, vão quebrar. Eu sei que fizeram juntos. É claro, um homem não faz nada sem uma mulher, nunca esqueça isso, a mulher é necessária para tudo. Eu sei que metade do trabalho é obra sua. Mas fique um instante comigo, quero admirá-la. Sabe que é bonita demais? Sabe? Quem lhe disse? Mamãe e papai? Eles sabem das coisas. O quê, Tito?, disse "senhor" pra mim? Escutem, vou pedir uma coisa, que pedi aos seus pais e eles não me atenderam: tratem-me por "você". Ok? Pelo nome. Ou melhor, pelo apelido. Digam! Oh, céus...!, na boca de vocês parece canto de pombos. Hã? Pombos não cantam? Ah, arrulham suaves como a paz. Peguei vocês: dá na mesma, são a paz pra mim. Então está combinado. Estou completando só quarenta anos. Sei que parece a idade do mundo mas, garanto, sou jovem. Sou menino mesmo, como vocês. Aliás, podia ser um terceiro gêmeo seu. Que tal?, me aceitam? Está bem então, espalhem por aí que somos trigêmeos. Mas usem meu apelido quando falarem por aí. Podem até usar o título junto, "deputado", que essas coisas impressionam. Mas junto com o apelido, vejam lá! Ah, sim, vamos à obra-prima. Puxa vida, que trabalho formidável! Querem saber? não irei mais de helicóptero à minha casa em São Paulo, irei de viaduto. Quê? De carro? Foi o que eu disse, ora essa, de carro...
  Ao dar "boa noite", indo recolher-se, falando em banho e desabar na cama, aparentava estar descarregado. Ela anelava que assim fosse. Desejava mesmo lhe emprestar os meninos, um a lhe fazer cafuné, outro a recostar no peito, anestesiando-o no sono, garantindo a energia positiva necessária para o dia a vir.
   Devaneio; tratam-se de filhos, não de travesseiros recheados de sálvia e melissa. A propósito, ofertou-lhe um desses travesseiros de ervas, quando os confeccionou para os de casa.