quinta-feira, 1 de agosto de 2013

nham...!

Desde os dois anos Lalá
fala bem, em sopraninho.

Abre a geladeira e investiga
bem de perto as prateleiras,
e na pontinha dos pés,
busca ver fora do alcance,
falando assim a ninguém:

“deixa eu ver o que vou comer”

A mãe recheou cebola
com um pesto de abóbora,
ralou queijo e empanou
e dourou no forno quente.

A menina estourou uma
com dentinhos de morder
trufa de chocolate, bombom,
e suspirou um sorriso
assim, todo empastadinho:

“cebola é doce, mamãe”.

Lalá é real e densa.
É finusca mas é densa.
A gente a coloca no colo
esperando peso pena
mas pensa que é de mármore.

Sobe com os dois pés
no Louboutin esquerdo da mãe
_ no que ainda não lhe serve
Lalá quer somente brincar.

É sempre de boca cheia
que me recebe à porta,
e lhe perdoo total
o sorriso de mastigação.

É que esqueletinhos da África,
de olho afundado e mortiço,
tenho encravados na retina.

Enquanto rechonchudinhos
mastigam papel na praça
de alimentação do Shopping,
Lalá devora feijão
arroz e todas as cores
que estão postas na mesa

e fast food também.

E me lembro também fui
um desses esqueletinhos,
e devorava a dentadas
a banana inteirinha
e depois comia a casca.