terça-feira, 24 de junho de 2014

HEM:CÉZANNE. MIM: MATISSE...

Hernest Hemingway, entre 1921 e 1926, morando em Paris, ia ao Musée Du Luxembourg estudar Cézanne. Escreveu: "Estava aprendendo com Cézanne algo que tornava as frases simples e verdadeiras que eu escrevia em algo muito aquém das dimensões que tentava dar aos meus contos". Devia se referir àquela qualidade de fragmentos em sobreposições, sem se misturarem em esfumaçamento. As imagens são compostas de pinceladas em cores díspares. No pintor da Montagne Sainte-Victoire é possível exuberância com movimento sutil.
Assim decidiu fazer já de início, meu contador de histórias favorito, cortar floreados; anotava a frase mais verdadeira que soubesse, e avançava a partir daí. Escrevendo um conto a respeito de cada coisa que conhecesse realmente bem. Numa pintura direta, representação sem artifícios, narração ao vivo.
Direção que está me interessando tomar. Se puder lidar com tal minimalismo. Aqui?, abaixo da Linha do Equador.
Hem foi produzido durante a I Guerra Mundial, nos bosques de cedro de Michigan, perto dos índios, pescando trutas nos lagos musguentos para consumir e mesmo vender, escondido da fiscalização florestal, para certa Mrs. Packard que tinha o cheiro da cozinha muito limpa do seu hotel quando assavam pães _ espere: esse foi Nick Adams; Ok, deixe-me falar simbolicamente também. E logo seguiu a girar mundo. Lutas de boxe. O campo de batalha. Itália. França. Cuba, o mar. Espanha. Amores. Uma turbulência viril. E ascética.
Semelhança nossa? Os seus lagos e as minhas lagoas.
Fui produzida nos Anos Setenta, na Lagoa Mundaú. Prata a cintilar e espelhar na margem oposta as cores pastel da orla de prédios de Maceió, durante o dia. Ouro de quando o sol de ocaso mergulha. Labaredas sobre negro da iluminação noturna. Branco da faixa de areia, cá. Verde musgo do coqueiral. Laranja manchado das fileiras de telhados duas águas. O bronze oriundo da África na gente a encher balaio com sururu e pitu para consumir e vender. Os tons primários e secundários das flores e frutas da Mata Atlântica. Mais adiante, plantada fora daí, a paleta descorou. Os vizinhos são italianados e aos meus olhos os muros da cidade parecem a Muralha da China, um cinzento unificado a ocultar o horizonte.
Poderia vir a ser assim vertiginosa a queda para o texto que, descobri, não me assentava. Inaccrochable. Nas palavras de Miss Gertrude Stein para o mesmo Hemingway: "É como um quadro que o pintor pinta e depois não tem coragem de pendurar quando faz sua exposição. E ninguém o comprará porque não poderá pendurá-lo também". Estou sabendo que nem em Nelson Rodrigues o gênero assentava, embora ele o tenha pendurado. Idem para Henry Miller, mas este... hum... Sei lá.
Enfim, acabou que, socorrendo-me de um paliativo, vim assimilando Matisse. O dos arabescos. Pois veja, foi esse mesmo quem apontou em Cézanne o respeito à superfície, tudo levado ao mesmo plano. Julguei que o caminho fosse captar uma intimidade vintage que avisto em Peixes vermelhos, A Senhora Matisse: madras vermelho, Interior, aquário com peixes vermelhos, A lição de piano, pinturas nas quais adivinho uma época, um lugar e um estado de espírito que conheço sem nunca ter visitado. Há nelas doçura, mas há precisão, há sutileza, mas há exuberância. Afinal Cézanne foi um mestre para Matisse, que dele bebeu sem perder os arabescos.
Quero beber de Hemingway sem dissipar Matisse, sem me dissipar.
Hem não foi sóbrio, foi louco o tempo inteiro. Desde quando matou o veado proibido, quando pescou a truta proibida, quando foi à pensão avisar ao pugilista sueco que era procurado por dois assassinos, quando aceitou levar a menina na fuga para um lugar secreto nas montanhas, no intuito de conter a loucura, uma espécie de exercício de autocontrole... _ sorry, Nick Adams again _ a correspondência de guerra, o boxe, as touradas, a participação na luta contra o fascismo...
Anyway, sendo a morte inevitável, ele pode ter desejado que acontecesse exatamente na hora em que estivesse pintando mais uma Sainte-Victoire, qual Cézanne.
Um mórbido controlado, sem ser afundado feito Kafka. Mantinha a morbidez submersa, enquanto fazia outras coisas. Figura disso é o seu velho Santiago no mar de Cuba, com o braço direito imobilizado a segurar o grosso fio em cuja ponta lutava o peixe gigante, e com o direito pescando pequenos atuns, destripando-os, lavando-os e cortando em tiras que ia comendo para manter as forças e vencer a luta.
A bipolaridade é o que desejo manejar. Num dia todas aquelas cores, noutro a ausência de tudo _ pois naquela farta paleta de lá já havia os dias cinzas e negros _ um pai que ia, a bem dizer, suicidar-se pela cirrose, e a fome e os maus tratos, e demais coisas ruins do alcoolismo. As sequelas, quero-as imersas sempre. Chegue mesmo a ser uma pipa flutuando no ar. Presa por um fio. Nunca um papel solto na brisa, em vôo sem plano. Nem sei se a pipa deve subir tanto. Sei é que a negação jamais.
Sobretudo quero imprimir subentendidos _ ele escreveu diretamente que Mrs. Packard amava a cultura como Mr. Packard amava o bom uísque supervisionado pelo governo. E indiretamente que Mr. Packard era um entusiasta do sexo. Resultando da equação que este teria de dar conta do serviço do armazém sem a presença diária de uma ajudante como Suzy. Sendo essa revelação umas parcas pinceladas de terracota batidas subitamente entre azuis. Frases aquém das dimensões da história.
Ainda estou nebulosa. Como aquele Hem dos Anos Vinte também não conseguia clareza suficiente para comunicar a quem quer que fosse o que estava aprendendo com Cézanne. Jovem em início de carreira, apenas correspondente do Toronto Star Week, depois do estágio no Kansas City Star. O escritor estava recém-nascido, o primeiro livro foi publicado por esse tempo. Fico supondo que a conquista da vaga de correspondente em Paris tenha sido muito devida ao seu aspecto bonito e americano como a Estatue of Liberty. Sem ele precisar dar compensações a alguém _ é irrecusável um pedido da Liberty. Outra especulação minha, liberdade de expressão _ ou... libertinagem?
E ele fechou tudo ao se decidir pelo sono eterno. Ainda era um tempo em que um homem de sessenta e um anos, via de regra, estava velho; doenças desse desgaste; e ele tolhido de suas aventuras; daí a depressão profunda.
A vida. Tudo acaba. Até Lady Liberty vai se acabar um dia. Quem sabe fique como no The End de O Planeta dos Macacos, esburacada de queimaduras, afundada a meio no solo da Bedloe. Mesmo com Bin Laden já morto.
Mim? Estou mesmo me comparando com Hem?! Oh, my God...

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Sal Pimenta Fogo

            
            
            Era o refrão; começava-se a pular devagar aumentando o ritmo aos poucos até a corda virar um azougue quase imperceptível e aí era o  momento de saltar fora, ou enroscar as canelas e se estabacar no chão, entre risadas e mais um esfolamento divertido para a coleção.
            Mas a menina não apreciava muito a brincadeira, sempre foi mais de contemplação, e mesmo pra isso sem tempo, pois aos cincos anos virou babá, com o nascimento da primeira de várias sobrinhas.
A respeito da parideira desses nenéns, reconhece-lhe a beleza naquela época: bem moça, do tipo personagem de Jorge Amado com fundo musical de Dorival Caymmi. O cabelo crespo a luzir, imune ao sol, emoldurava em oval o rosto quase café, o decote do tubinho de chita a facilitar as mamadas do bebê pendurado no colo. No ano seguinte a criança estaria atracada à perna bem torneada enquanto outro bebê crescia na barriga, e a moça se lamentava, ora com queimação no estômago ora com dor cabeça, e aplicava na menina babá um pescoção bem dado pra esta sair do caminho e dizer em que lugar tinha enfiado o pente. De ponto de observação nada vantajoso a coitada finalmente avistava o pente espetado no alto da cabeça da outra, e avisava “Ói aí, ó!”. A moça então “Eita, Deus”, e aquele bofete ficava de brinde.
Sabe esse negócio de “Ô, Fulaninha, faz um favor pra sua tata: vai na venda buscar meio quilo de açúcar, duas cebolas, uma cabeça de alho e duas quartas de manteiga”? Pois é, ainda não tinha sido inventado, os itens eram listados debaixo de cascudo pra garantir a atenção, e se algum item fosse esquecido, outros cascudos eram garantidos na volta.
Tantos eram o sopapos dia a dia, que alguma vez chegou a preocupar o marido, homem manso além da conta: “Minha senhora, tu ainda mata essa menina...”.
A moça, por seu demasiado cansaço, pela pouca comida pra tanta boca, o bebê a lhe morder doído o seio, costumava soltar uma saraivada de resmungos : “Ôxe, e não é? Ou se não quando essa besta for s’imbora pra São Paulo vai sem uma perna e um braço, ‘té lá sou capaz de cortar, que isso não vale o que tem na tripa”.
Era doida por pimenta, em toda refeição esmagava uma malagueta no pires, despejava em cima umas colheres de caldo de feijão e regava o prato com esse fogo. O marido detestava até o odor dessa quentura toda, vivia advertindo a que não lhe contaminasse o prato. Deu-se porém que num almoço uma das crianças, a de três anos, abriu um bocão do tamanho do mundo, com muita lágrima e pulos e gritos de “Tá queimando, tá queimando”, abanando a língua e gotejando saliva. O pai ficou furioso: “Não te digo, minha senhora, óia agora, na boca da menina... Ainda te esfrego um bocado no olho!”.
Ela se armou toda: “Tu não é homem pra isso”.
Pois ele ato contínuo melou no molho os dedões de gigante, besuntou-lhe a cara inteira, e em seguida se pegaram os dois numa briga corpo a corpo que nem os caranguejos do mangue, a girar atracado em redor da mesa, a esbarrar nas cadeiras, no armário, a se ralar pelas paredes; a criançada assustada num berreiro só.
Depois a moça lavou muito o rosto, que pelo resto do dia brilhou inchado, e ao jantar ainda estava deformado.
A menina babá de mãos grudadas na mesa, a cara escondida a meio no tampo, ficou a considerar ali consigo o homem da casa: “Né que ele é o meu herói?...”.

A saber: hoje em dia ainda tem duas pernas e dois braços. Saiu quase incólume.


domingo, 16 de fevereiro de 2014

Pescaria Noturna



O pesqueiro, magnífico ao entardecer nublado: dois lagos amplos no vale plano, o verde da Serra do Japi em redor, palmeiras e ipês amarelos enfileirados à esquerda, um campo rebordado de capim rosa à direita, uma casa de fazenda espalhada na encosta ao longe. Isso aqui é o sul da França, falei, planejando voltar num dia ensolarado pra fotografar e desenhar a paisagem.
Aí o breu da noite desceu, uns bêbados se ajuntaram na lanchonete a alguma distância, ao som de música horrível, falando aos berros e cantando desafinados, incansáveis. Trancada no carro com um livro passei muita raiva, até às três horas da madrugada. Lembrei uma sequência cinematográfica em que a Mulher-Gato derruba a porta de uma festa pauleira, estraga o aparelho de som com a mangueira de chopp e derruba um bando de agressores.
O marido opinou: A roupa da Mulher-Gato a gente até pode providenciar, só não garanto deixar o bando no chão...
Em casa enfim apaguei, mas o sono foi ruidoso, com sonhos perturbadores de violência e bullying, em que umas moças japonesas de perfeitos cabelos chapados zombavam do meu pixaim. E então num clic o sonho me trouxe um grupo de sete chineses gordos a me entregar comida do China in Box, estranhamente cada qual com uma caneca de alumínio, e eram tão trapalhões que quase me mataram de rir, acordei às gargalhadas; dez e meia da manhã.
Bom quando acaba bem.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

AMIGOS DE INFÂNCIA


     


A boneca, que mamãe fez de retalho e fios de lã, eu vivia arrastando pelo braço e escondia na bolsa da escola. Um dia passei a tesoura nas suas trançonas, com meu gosto por cabelo fuarento. Virou essa Arabeske de black power azul (blue power?).
O gato azul que se infiltra na minha arte, foi trazido filhote por meu cunhado mais velho, nos seus idos tempos de candidato a cunhado, meio embrulhado num jornal (mamãe se animou pensando que se tratasse de um quilo de carne, tadinha). O bichano fez parte da família durante muitos anos. Um dia foi atropelado, perdendo o rabo, e curamos o toco com penicilina. Seu grande amor era a irmã do meio, que, adolescente, ia de manhãzinha para o trabalho e direto de lá para o colégio, à noite; saindo da aula, ouvia o miado no beco lateral, e chamava _ Mimoso, é você?” _ A carinha surgia da sombra. Então ele voltava de colinho pra casa. Noutro atropelamento o perdemos.
Arabeske acha tolo esse nome tão de gato, queria chamá-lo Sorbonne, que nem a universidade francesa, sei lá _ Alguma criatividade _ diz ela _ a gatinha do Karl (Chanel) Lagerfeld é Choupette, o Jô Soares teve um gato chamado Sérgio.
Mas é o seguinte: ela nem tinha nome quando era de pano e fios de lã, ele já chegou chamado assim, foi Mimoso a vida toda, e depois que a gente de carne e osso morre, o que aqui deixa é um nome. E uma memória azul.

criança

um livro de pano