quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

AMIGOS DE INFÂNCIA


     


A boneca, que mamãe fez de retalho e fios de lã, eu vivia arrastando pelo braço e escondia na bolsa da escola. Um dia passei a tesoura nas suas trançonas, com meu gosto por cabelo fuarento. Virou essa Arabeske de black power azul (blue power?).
O gato azul que se infiltra na minha arte, foi trazido filhote por meu cunhado mais velho, nos seus idos tempos de candidato a cunhado, meio embrulhado num jornal (mamãe se animou pensando que se tratasse de um quilo de carne, tadinha). O bichano fez parte da família durante muitos anos. Um dia foi atropelado, perdendo o rabo, e curamos o toco com penicilina. Seu grande amor era a irmã do meio, que, adolescente, ia de manhãzinha para o trabalho e direto de lá para o colégio, à noite; saindo da aula, ouvia o miado no beco lateral, e chamava _ Mimoso, é você?” _ A carinha surgia da sombra. Então ele voltava de colinho pra casa. Noutro atropelamento o perdemos.
Arabeske acha tolo esse nome tão de gato, queria chamá-lo Sorbonne, que nem a universidade francesa, sei lá _ Alguma criatividade _ diz ela _ a gatinha do Karl (Chanel) Lagerfeld é Choupette, o Jô Soares teve um gato chamado Sérgio.
Mas é o seguinte: ela nem tinha nome quando era de pano e fios de lã, ele já chegou chamado assim, foi Mimoso a vida toda, e depois que a gente de carne e osso morre, o que aqui deixa é um nome. E uma memória azul.

criança

um livro de pano