quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Sal Pimenta Fogo

            
            
            Era o refrão; começava-se a pular devagar aumentando o ritmo aos poucos até a corda virar um azougue quase imperceptível e aí era o  momento de saltar fora, ou enroscar as canelas e se estabacar no chão, entre risadas e mais um esfolamento divertido para a coleção.
            Mas a menina não apreciava muito a brincadeira, sempre foi mais de contemplação, e mesmo pra isso sem tempo, pois aos cincos anos virou babá, com o nascimento da primeira de várias sobrinhas.
A respeito da parideira desses nenéns, reconhece-lhe a beleza naquela época: bem moça, do tipo personagem de Jorge Amado com fundo musical de Dorival Caymmi. O cabelo crespo a luzir, imune ao sol, emoldurava em oval o rosto quase café, o decote do tubinho de chita a facilitar as mamadas do bebê pendurado no colo. No ano seguinte a criança estaria atracada à perna bem torneada enquanto outro bebê crescia na barriga, e a moça se lamentava, ora com queimação no estômago ora com dor cabeça, e aplicava na menina babá um pescoção bem dado pra esta sair do caminho e dizer em que lugar tinha enfiado o pente. De ponto de observação nada vantajoso a coitada finalmente avistava o pente espetado no alto da cabeça da outra, e avisava “Ói aí, ó!”. A moça então “Eita, Deus”, e aquele bofete ficava de brinde.
Sabe esse negócio de “Ô, Fulaninha, faz um favor pra sua tata: vai na venda buscar meio quilo de açúcar, duas cebolas, uma cabeça de alho e duas quartas de manteiga”? Pois é, ainda não tinha sido inventado, os itens eram listados debaixo de cascudo pra garantir a atenção, e se algum item fosse esquecido, outros cascudos eram garantidos na volta.
Tantos eram o sopapos dia a dia, que alguma vez chegou a preocupar o marido, homem manso além da conta: “Minha senhora, tu ainda mata essa menina...”.
A moça, por seu demasiado cansaço, pela pouca comida pra tanta boca, o bebê a lhe morder doído o seio, costumava soltar uma saraivada de resmungos : “Ôxe, e não é? Ou se não quando essa besta for s’imbora pra São Paulo vai sem uma perna e um braço, ‘té lá sou capaz de cortar, que isso não vale o que tem na tripa”.
Era doida por pimenta, em toda refeição esmagava uma malagueta no pires, despejava em cima umas colheres de caldo de feijão e regava o prato com esse fogo. O marido detestava até o odor dessa quentura toda, vivia advertindo a que não lhe contaminasse o prato. Deu-se porém que num almoço uma das crianças, a de três anos, abriu um bocão do tamanho do mundo, com muita lágrima e pulos e gritos de “Tá queimando, tá queimando”, abanando a língua e gotejando saliva. O pai ficou furioso: “Não te digo, minha senhora, óia agora, na boca da menina... Ainda te esfrego um bocado no olho!”.
Ela se armou toda: “Tu não é homem pra isso”.
Pois ele ato contínuo melou no molho os dedões de gigante, besuntou-lhe a cara inteira, e em seguida se pegaram os dois numa briga corpo a corpo que nem os caranguejos do mangue, a girar atracado em redor da mesa, a esbarrar nas cadeiras, no armário, a se ralar pelas paredes; a criançada assustada num berreiro só.
Depois a moça lavou muito o rosto, que pelo resto do dia brilhou inchado, e ao jantar ainda estava deformado.
A menina babá de mãos grudadas na mesa, a cara escondida a meio no tampo, ficou a considerar ali consigo o homem da casa: “Né que ele é o meu herói?...”.

A saber: hoje em dia ainda tem duas pernas e dois braços. Saiu quase incólume.