terça-feira, 5 de abril de 2016

VESTIDO DE ORGANZA


É uma memória lilás, mas na realidade tinha fundo branco, minúsculas florezinhas amarelas e folhinhas verdes. Costurado à mão por mamãe. É que tudo se achegava ao azul pela iluminação fluorescente da praça Santo Antonio e a azulejaria portuguesa da igreja.
Devo tê-lo usado em diversas missas e nalguma festa de casamento na casa da patroa da mamãe, pois ele deteve o posto de único traje de sair por muito tempo.
Mas uma das vezes em que o vesti deixou trauma. Aguardava a hora de ir para a Missa do Galo, envolta nesse conforto sedoso, recostada na cadeira de fios com o extremo cuidado de não amarfanhá-lo. Conhecendo mamãe, tenho certeza de que deviam ser entre sete e oito horas da noite. Pronta e contando os segundos.
A irmã do meio, toda independente, iria com a sua tropa de amigas adolescentes.
A irmã mais velha já não. Casada e mãe cedo demais, nunca ia. Só andava de mal com a vida, afinal de contas, aonde iria arrastando sua escadinha de quatro meninas de olhos grandes para aquele tanto de carrinhos de iguarias na praça? Com os bolsos revirados pra fora _ aliás, sem bolso nenhum.
Eu, trabalho assim não dava. Minhas vontades até ousavam se insinuar para o petisco mais conhecido e barato, o buquê de roletes de cana, mas em silêncio, de mim para mim, desde que mamãe reagiu ”Ôxe! Tem cana no quintal de todo mundo...” Nos dias comuns até criança cortava e chupava cana até dar dor nas cáries.
Afora a comida, a festa era de graça. Eu ia por causa do passeio ao longo das calçadas, admirando os casarões ali acolá. Ia para ver. A luz azulada, a gente enfeitada. Atraía-me aquele cheiro de antecipação do Natal. Afinal era a que tudo se resumia, no dia seguinte nada ia acontecer.
Mamãe me levaria de certo contragosto, porque uma pessoa em torno dos sete anos de idade sempre retorna desacordada de um compromisso à meia-noite.
Imagine se eu não dormia. Se ainda hoje necessito de grande empenho para manter os olhos abertos no culto da virada do ano, com o metal pentecostal da orquestra quebrando grilhões.
Na missa, mal começava, eu já ia apagando. Um cerimonial, incenso, serenidade...  
Mamãe então cobrava de si bastante coragem, a avaliar seu metro e quarenta e cinco de estatura e a caminhada de mais de meia hora com este pacote aqui agarrado junto ao peito.
Mesmo assim ela havia me arrumado com seu jeitinho de fazer ante tempo e esmerado. E eu só aguardando aquela hora demorada!
Em dado momento senti algo se mexer sob mim, contra os fios do assento. De um salto arriei a calcinha e _ horror: uma lombriga tinha saído de mim e se retorcia, parecendo imensa a tão pouca distância. Com asco, sacudi longe o bicho, e armei o maior escarcéu que se possa imaginar, gritos e muito choro soluçado. Mamãe me socorreu e levou muito tempo para me acalmar. Quando por fim sosseguei, caí num sono de exaustão.
Só quando o sol já queimava pleno, a rebrilhar na superfície da lagoa Mundaú, foi que despertei, na cama. Amanhecera o Natal havia horas.
A raiva que me deu!
Mamãe evidentemente foi à Missa do Galo.
A irmã do meio com suas amigas.
Eu fiquei. Como a irmã mais velha.
E as quatro menininhas esfomeadas que não podiam ser postas em contato com os carrinhos de petiscos.
Vai ver foi esse motivo mesmo que levou a lombriga a optar pelo suicídio:
“O quê?! Ir remoer a fome naquela praça impregnada de comida??? De jeito maneira! Morro aqui! Pare que eu quero descer!! Cadê a saída...?! Adeus!!!” 

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